Ο ΛΟΓΟΣ ΓΑΡ Ο ΤΟΥ ΣΤΑΥΡΟΥ ΜΩΡΙΑ ΕΣΤΙΝ

Mensagem aos F.M.C. 2

2010-04-08 12:00

VOTORANTIM  08,04,10  Quinta Feira

 

A Palavra-Oração do fim do encontro:

 

 

Amados filhos e filhas do Mosteiro da Misericórdia da Santa Cruz,

 

          Quero iniciar nosso dia implorando a Nosso Senhor Jesus Cristo, a Virgem Santíssima e Puríssima, e a todos os Santos e Anjos, que possamos viver em Estado de Graça.

          Porém, para falar de Estado de Graça, é necessário começar  falando de Pecado.

         O maior bem que podem receber as pessoas em pecado é a Graça da conversão. E é exatamente esta palavra que não existe mais em nosso vocabulário. Estas palavras alienígenas, como “estado de graça”, “pecado mortal”, “arrependimento”, “conversão”, “penitência”, parecem não fazer parte da vida de todos nós. Tudo não está resumido a  “misericórdia”, “perdão”.

O que mais uma pessoa em pecado precisa ouvir?

          O conselho repleto de caridade que devemos dar: procure com todas suas forças viver em estado de graça durante toda sua vida. Quem vive em estado de graça é como a virgem prudente, que trouxe óleo para sua lâmpada. Quando a morte o encontrar, saberá que seu destino é o Céu. Aquele que vive em pecado é como a virgem louca, que não mantém acesa sua lâmpada, ou seja, não se mantém em estado de graça. E este ficará de fora do Reino, ou seja, perderá o Céu, se a morte  (aqui e muito além daqui) o encontrar neste estado. Ou será que Cristo estava zombando de nós ao nos colocar medos improcedentes?

          A passagem é estreita, e por isso a necessidade de Vivermos em Estado de Graça, todos nós necessitamos experimentar dessa verdadeira felicidade.

          Sempre as lindas palavras nos ajudam a erguer os pés do chão e do pecado, por isso quero lhe s dizer:

 

Senhor, Senhor, o Teu anjo terrível

é sempre assim? Não tens um refratário

à hora do massacre — um mais sensível

que atrasasse o relógio, o calendário?

Ao que parece a todos tanto faz

por quem o sino dói no campanário.

 

Começa a amanhecer e uma vez mais

rebelo-me, mas sei que a minha vida

não tem como ou porque voltar atrás.

 

Aceito que a mais dura despedida

é bem mais que metáfora do nada

a que se inclina no chão; que uma ferida

 

e a papoula sangrenta da alvorada

pertencem ao mundo sobrenatural

tanto quanto uma lágrima enxugada

 

à beira de um caixão. Mas afinal,

Senhor, amas ou não a humanidade?

Não fui ao escandaloso funeral

 

e imaginá-la em Tua eternidade

dói demais! Vou passar mais este teste,

sim, mas protesto contra a insanidade

 

com que arrancas a muque o que nos deste!

Tu sabes que a soberba da família

era maior que a dela e eu tinha a peste —

 

pai e mãe apartavam-me da filha

e o irmãozão nem... E hoje, coitados,

como hão de estar? Aqui é a maravilha,

 

as genuflexões.... Os potentados

e os humildes, a nata da esperança,

todos chegam por cá meio esfolados,

 

sangrando como a luz. Não só da França,

toda a Europa rasteja até aqui

esfolando os joelhos, não se cansa

 

de ensangüentar-se até chegar a Ti,

e ao menos a um pixote do Além Tejo

restituíste a vista: eu quando o vi

 

solucei — mas que o cego e o paraplégico

saiam aos pinotes, que o Teu coração

se escancare e esparrame um privilégio

 

aqui e outro acolá na multidão,

só me faz perguntar: E ela? E ela...?

Não consigo entender que a um aleijão

 

concedas tanto enquanto a uma camélia

Tu deixas despencar.... Porque, Senhor?

Olho tudo do vão de uma janela,

 

mas vejo a porta de um elevador

escancarar-se sobre um outro vão,

um vão sem chão... E a seja lá quem for

 

aqui absurdamente dás a mão!

Me pões trêmulo, gago, estupefato,

pasmo, Senhor — mas consolado não.

 

A mesma mão que fez gato e sapato

da minha doce Musa, cura e guia,

cancela as entrelinhas do contrato,

 

Dominus dixit... Mas quem merecia

mais do que uma açucena matinal

um manso desfolhar-se ao fim do dia,

 

quem mais do que uma flor, Senhor? Igual

nunca se viu nem mesmo entre os crisântemos,

tinha direito a um fim mais natural,

 

à morte numa cama, em casa ao menos...

Mas não — tinha que ser total o escândalo!

Por que, se nem nos circos mais extremos

 

Teus mártires andaram despencando

sobre os leões, se nem o lixo cai

de oito andares aos trancos, Santo Vândalo?!

 

Não vim denunciar o Filho ao Pai

ou o Pai ao Filho, não vim dar razão

aos que recusam e usam cada ai

 

contra a humildade; vim porque a Paixão

me chamou pelo nome a a alma obedece

e aceita suar sangue — como não?

 

Mas não sei mais unir o rogo à prece

do que a elegia ao hino de louvor,

não seu amar-Te assim... Caso soubesse

 

teria que ficar aqui, Senhor,

aqui, arrebentando-me os joelhos,

esfolando-me todo ante um amor

 

que vai tornando sempre mais vermelhos,

mais duros os degraus do Teu altar.

Tu, que tudo consertas, dos artelhos

 

que desentortas e repões a andar

até às pupilas mortas de um garoto,

do cachoupinho que me fez chorar;

 

Tu, que a este lhe dás a flor no broto

e àquele o lírio pútrido do pus;

Tu, que passas por um de quatro e a um outro

 

pegas no colo e entregas a Jesus;

Tu que fazes jorrar da rocha fria;

Tu que metaforizas Tua luz

 

ao ponto de fazer de uma agonia

um puro horror ou a morna mansuetude —

que hás de fazer, Senhor, comigo um dia?

 

Quando eu agonizar, boiar no açude

das lágrimas sem fundo... Quando a fonte

cessar de soluçar e uma altitude

 

imerecida me enxugar a fronte...

Como há de ser, Senhor? Oxalá queiras

que a mim me embale a barca de Caronte,

 

como o fazia a velha Cantareira,

o azul da travessia... A Irrecorrível

arrasta a cada um de uma maneira

 

e a quem quer que se abeire ao invisível

recordas a promessa: aquele a escuta

e este a recusa porque a dor é horrível,

 

mas, se a todos a última permuta

terá sempre o sabor da anulação,

o travo lacrimoso da cicuta,

 

a ela Tu negaste o próprio chão,

deixaste-a abrir a porta sem querer!

Nunca falou na morte, e com razão,

 

intuía, quem sabe, o que ia ver...

Sentença Tua? Em nome da promessa

não há negar Teu duro amanhecer —

 

mas quando arrancas mais uma cabeça

como saber que és Tu, que não mentia

O que ressuscitou? Talvez na pressa,

 

no pânico de Pedro, eu negue um dia

e trate de escapar, mas hoje não;

hoje sofro com fé e, sem poesia,

 

metrifico uma dor sem solução,

mas não vim negar nada! Faz efeito

essa dor: faz sangrar, mas faz questão

 

de defender-me como um parapeito

contra a queda e a revolta... Um Botticelli

despedaçou-se todo, mas que jeito,

 

se por Lear enforcam uma Cordélia

e encarceram a Ariel por Calibã...?

Alvorece, a manhã beata velha

 

enfia agulhas no Teu céu de lã,

antenas às Tuas cenas de TV,

e eu penso, ela morreu... Hoje, amanhã,

 

enquanto Te aprouver e até que dê

a palma ao prego e o último verso à traça,

vai doer — mas Amém! Não há porque

 

amar a morte, mas que venha a Taça,

aceito suar sangue até o final,

como não... Tudo dói, menos a graça,

 

mata, Senhor, que a morte não faz mal!

 

Bem, talvez tenha outras motivações menos conscientes, para desejar tanto que todos os homens vivam em estado de Graça, mas não tenho melhor justificativa para exercer minha missão, tão perigosa, de tentar demonstrar a necessidade do Homem de viver assim. Confesso que  imaginar-me um Santo Homem parece-me tamanha petulância que desde que me entendo por gente, tento fingir que sirvo para alguma coisa!

 

Amém Aleluia!

 

 dom Farès Maakaroun

Arcebispo da Igreja Católica Apostólica Greco-Melquita no Brasil

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