O valor absoluto do homem está no espírito, significa dizer que o homem só tem valor incondicional, independente de qualquer outra coisa, se for considerado em sua dimensão espiritual.
Em sua dimensão corporal (enquanto ser), o homem está sujeito aos altos e baixos do mundo, portanto terá "valor" - ou não terá nenhum "valor" - em função de fatores externos, aleatórios, independentes de sua vontade. Por isso é que se diz que o valor absoluto do homem está no espírito, ou seja, se não for considerado em sua dimensão espiritual, o homem deixa de ser um valor absoluto, um fim, um objetivo em si mesmo a ser alcançado, e passa a ser um meio, um instrumento a serviço de outros valores, pois seu valor se torna relativo ("relativo" significa "em relação a".. outras coisas / valores, o que é diferente de "absoluto", que não depende de qualquer relação; veja, por exemplo, a diferença de expressar uma quantidade em percentual ou em número absoluto: na fruteira há 20% de maçãs, esta quantidade é relativa à quantidade total de frutas na fruteira, ou seja, só saberei quantas maçãs existem realmente, se eu souber quantas frutas há na fruteira; o que é diferente de expressar a quantidade em número absoluto, pois quando eu digo, na fruteira há 50 maçãs, não preciso de qualquer outra informação para saber realmente quantas maçãs há na fruteira).
Mas o homem é finito enquanto ser. Enquanto valor ele é infinito, isto é, ele só é infinito pelos valores (morais) que ele é capaz de desenvolver (bondade, caridade, perseverança, coragem e tantos outros). A bondade do homem, a coragem do homem são infinitas, embora ele (homem) seja finito.
Como estes valores são desenvolvidos pelo espírito do homem (por sua dimensão espiritual) e não por seu corpo (por sua dimensão corporal), por isso é que se diz que o valor absoluto do homem, sua infinitude incondicionada, não dependente, nem relativa a qualquer outra coisa, está somente em seu espírito, e não em seu corpo.
Pois bem. No entanto, como o ser homem é finito, embora seus valores sejam infinitos, isto pode parecer uma contradição. Como é possível que existam valores absolutos, infinitos, presos a um ser (o homem) finito que termina e que está sujeito à morte? Para entender que aí não existe, na verdade nenhuma contradição, precisamos de Deus, isto é, de compreender o homem como ser fundado em Deus, isto é, criado por Ele, que é o único realmente infinito, tanto enquanto valor, como enquanto ser (diferente do homem que só pode ser infinito enquanto valor, mas não enquanto ser).
Portanto, se o homem não volta a Deus, seu Criador infinito, ele permanece sempre dividido, sendo finito enquanto ser, mas infinito nos valores que seu espírito pode alcançar. E se estiver dividido, o homem não alcança verdadeiramente a infinitude, o absoluto, que seu espírito é capaz de alcançar.
Por isso, inclusive, que se diz que o Cristo "vence a morte", na medida em que mostra que, se o homem é verdadeiramente fiel aos valores e, sobretudo, ao seu Criador, retornando a Ele e à Sua vontade, este homem vence a morte, isto é, vence aquilo que o torna finito, para se tornar infinito, ou seja, realmente absoluto com Deus, e não somente uma possibilidade de absoluto. Aí está também o sentido da ressurreição, pois, ao ressuscitar, Cristo nos mostra que, quando o homem se torna realmente absoluto, este homem volta a Deus, e assim o que era nele finito (a dimensão corporal do homem) se torna infinita.
† dom Farès Maakaroun
Arcebispo da Igreja Católica Apostólica Greco-Melquita no Brasil
Rev. Arquimandrita Theodoro
Av. Santo Antônio, 150 CA - Barra Funda - CEP 18.114-345+55 (15) 32435837