Vaticano, Outubro de 2010.
Agradeço a Deus por essa oportunidade de estar diante de Sua Santidade, e poder ser ouvido. Após 44 anos de sacerdócio, estando perto de me desligar das atividades de maior decisão em nossa Igreja, não poderia deixar de pedir o meu perdão a Sua Santidade, por ter assistido a vida dos meus fiéis, sem nada, ou quase nada, transformar em Bem e Bom ao meu redor, por me faltar a Santidade.
Hoje compreendo que nossos problemas dentro e fora da Igreja se devem a uma crise de credibilidade.Parece difícil acreditar numa Igreja Católica infalível, expressão terrestre da Verdade Eterna. Tal fato para mim é repugnante e abominável, mas não consigo negar a realidade, quando o cotidiano parece insistir em me mostrar uma Igreja falha, dividida, hesitante, quando não hipócrita ou rigorosamente falsa.
Percebo cada vez mais, nossos fiéis continuarem dizendo-se, ou mesmo acreditando-se, católicos, ou pelo menos sentimentalmente “cristãos”, ao mesmo tempo em que se resguardam de qualquer vínculo com a Igreja. Parecem ver uma oposição invencível entre suas aspirações íntimas e o formalismo dos rituais e do dogma. Eximem-se de qualquer obrigação religiosa rotineira, de modo que, sem o dom sobrenatural da Santidade em nós, seu fundo emocional cristão acaba dissolvendo-se numa mera sentimentalidade, vaga e hipotética, até desaparecer completamente no meio de preocupações cotidianas, vividas como mais urgentes ou reais.
No fundo, essa é a questão: a nossa falta de Santidade. Todas as demais questões, tão debatidas, no mundo cristão e fora dele, são apenas a expressão material e numérica de um problema puramente intelectual, que é a dificuldade de crer, hoje, no que a Igreja diz desde sempre.
Essa dificuldade leva a mentalidade relativista de nossos tempos, a questionar e contestar a Igreja essencialmente em quatro pontos: quanto à legitimidade da sua autoridade social e política; quanto a sua autoridade moral e ética; quanto a sua autoridade intelectual e científica e; finalmente, quanto a sua autoridade espiritual propriamente dita, isto é, quanto a sua necessária representação do Absoluto na Terra, da Verdade na Terra.
Papa Bento XVI, estou aqui diante de Sua Santidade, para que interceda por mim, agora, para que eu me torne Santo, antes de fechar as portas de meu gabinete de trabalho. Se a Providência Divina me concedeu a oportunidade de estar a sós com Sua Santidade, certamente, não é para pedir o que Sua Santidade já saiba, ou até mesmo identificar problemas particulares e gerais, dos quais já tenha Sua Santidade, clara noção.
Estou aqui, para pedir que me torne Santo, diante de vossos olhos, pois só assim, será um milagre cotidiano, dizer não aos padres e diáconos, que querem servir a Igreja, sendo casados; será um milagre aceitar que o Oriente e o Ocidente não serão escravizados, dia mais cedo dia mais tarde, por uma religião que transforma Deus em um Ser Inalcançável, e afasta Nosso Senhor Jesus Cristo, a religião do Homem, como presença viva e operante nas mentes e corações de todos os homens.
Papa Bento XVI, estou aqui diante de Sua Santidade, para que interceda por mim, para que eu me torne Santo, agora, para que em nenhum momento eu tenha coragem de afirmar que a Igreja é uma beneficiária do poder temporal, e se encarrega de recobrir com a auréola do prestígio sacro, as estruturas de domínio existentes. E que a nossa Igreja seria, por essa razão, cúmplice dos poderes deste mundo.
Papa Bento XVI, estou aqui diante de Sua Santidade, para que interceda por mim, para que eu me torne Santo, agora, para não necessite me apegar à experiência imediata, aos dados dos sentidos, que, embora insignificantes em si mesmos, surgem doravante como a única e minguada certeza possível.
Papa Bento XVI, estou aqui diante de Sua Santidade, para que interceda por mim, para que eu me torne Santo, agora, e não me torne mais um Bispo, a ter perdido praticamente toda a espiritualidade, perdendo também a compreensão das formas específicas mais simples de amar e perdoar.
Papa Bento XVI, estou aqui diante de Sua Santidade, para que interceda por mim, para que eu me torne Santo, agora, e me convença de que a nossa Unidade finalmente se realizará, para que eu possa repousar eternamente no conhecimento da santidade, até quando Nosso Senhor me quiser com Ele, no Céu.
Papa Bento XVI, estou aqui diante de Sua Santidade, para que interceda por mim, para que eu me torne Santo, agora. Afinal, se existe uma verdade, ela é imutável ou não é verdade de maneira alguma. Entretanto, o ser humano que conhece essa verdade é mutável, temporal, contingente. Isso significa que toda verdade, que o seja verdadeiramente, deve apresentar um número indefinido de formas, uma para cada ser humano, uma para cada momento e lugar, sem deixar nunca de ser ela mesma. E hoje, para mim a verdade significa a minha necessidade de Vossa intercessão, junto a Nossa Senhora, a Mãe da Ternura Eterna, por minha Santidade.
Santidade Bento XVI, minha língua quereria romper num cântico pleno de delirante melodia, quereria dizer no meu modo de ser e de me expressar, algo da transcendência, que pudesse iluminar-se pelo Espírito Santo, e conceber o mistério da santidade, manifestado amorosamente na vida de Cristo. Que Grande é Cristo! Que transcendente o Mistério que encerra! Que plena e esmagadora a Sua Realidade! Que pode ser em si que não seja, se é por sua Pessoa Divina, tudo quanto pode ser na Possibilidade Infinita de Deus, e por Sua Humanidade, tudo quanto o homem pode ser em sua possibilidade criada? Santidade Bento XVI interceda por minha santidade, agora.
Amém!
† Dom Farès Maakaroun.
Arcebispo da Igreja Católica Apostólica Greco-Melquita no Brasil.
Rev. Arquimandrita Theodoro
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